ONGs pedem calendário para fim de leilões de petróleo

Organizações do Observatório do Clima entregam ao governo recomendações para mapa do caminho doméstico de redução da dependência fóssil, encomendado por Lula

A produção de petróleo precisa migrar de uma lógica que busca explorar o máximo possível para outra que explore o mínimo necessário. Pode até soar como um jogo de palavras, mas é uma síntese do que propõe o Observatório do Clima em um documento publicado nesta quarta-feira (28/01) com recomendações ao governo, que tem até 6 de fevereiro para apresentar diretrizes para produzir seu mapa do caminho para a redução da dependência de combustíveis fósseis. O prazo foi estabelecido em dezembro, logo após o fim da COP30, a partir de um despacho assinado pelo presidente Lula.

O documento do Observatório do Clima – rede que reúne 161 organizações da sociedade civil – é embasado no estudo Futuro da Energia: visão do Observatório do Clima para uma transição justa no Brasil, publicado em 2024. As recomendações contemplam aspectos técnicos, regulatórios e financeiros, já que uma transição verdadeiramente justa precisa ser implementada de maneira transversal, perpassando ministérios e fóruns especializados.

Política energética e de transição setorial

No campo técnico, o OC recomenda que o governo estabeleça um cronograma para zerar os leilões de petróleo no Brasil, suprindo a demanda doméstica decrescente de petróleo com os poços já existentes.

Além disso, o documento recomenda a criação de zonas de exclusão para exploração de combustíveis fósseis em áreas socioambientalmente sensíveis, com renúncia, por exemplo, a novos empreendimentos petrolíferos na Margem Equatorial, em especial na Foz do Amazonas. O OC recomenda que o governo faça um cálculo da produção mínima necessária, voltada às atividades nacionais que não possam substituir petróleo e derivados por completo.

Como alternativa à diminuição do uso de combustíveis fósseis, o documento propõe a otimização da geração hidrelétrica sem a construção de novos reservatórios, e a aposta em inovações, como a geração fotovoltaica em espelhos d’água das usinas. O OC não recomenda o investimento em tecnologias de captura, utilização e estocagem de carbono de base tecnológica (CCUS/CCS) por terem alto custo, elevado risco tecnológico e limitada capacidade de escala no curto e médio prazo.

O documento lembra que 52% das emissões nacionais vêm do transporte rodoviário. Por isso, recomenda que o transporte de cargas rodoviário abranja cada vez mais um leque de tecnologias alternativas aos combustíveis fósseis, como biometano, biodiesel, diesel verde, etanol, hidrogênio e eletrificação.

Governança e institucionalidade

No campo regulatório, o Observatório do Clima propõe, para início de conversa, que o governo corrija a rota atual de incentivos, de todo incompatível com a trajetória de descarbonização. Em 2024, os subsídios federais aos combustíveis fósseis alcançaram a quantia de R$ 47 bilhões.

O documento sugere que o governo fortaleça fóruns especializados, como o Fórum Nacional de Transição Energética (Fonte), que deveria evoluir de um modelo consultivo para uma estrutura com poder de influência direta na tomada de decisão ministerial. Propõe também a criação de uma “Autoridade de Implementação” com competência legal para monitorar prazos, aplicar correções de trajetórias e garantir a estabilidade institucional do cronograma de transição energética. Em paralelo, sugere a publicação de uma matriz de responsabilidades, assegurando que a execução do mapa do caminho não dependa apenas da conjuntura política, mas de um rascunho institucional sólido.

O relatório sugere ao governo a instituição de um plano nacional de descomissionamento, com cronogramas vinculantes para o fechamento de infraestruturas fósseis e a participação ativa dos trabalhadores e das comunidades afetadas, com políticas de requalificação profissional e criação de empregos verdes. O documento lembra também que é necessário instituir no âmbito da construção das políticas energéticas do Brasil os conceitos de racismo ambiental, racismo energético, pobreza energética a partir de soluções que visem uma transição energética justa, popular, inclusiva e sustentável.

Orçamento, financiamento e fundamentos econômicos

Por fim, o relatório faz uma série de recomendações no campo econômico – que passam, inevitavelmente, pela eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis e pela reformulação da política exploratória da Petrobras (o Plano de Negócios da empresa para o período entre 2026 e 2030 apresentou uma queda de 20% nos investimentos direcionados à transição energética).

O relatório menciona que até 85% dos ativos da Petrobras podem se tornar obsoletos em cenários compatíveis com o aumento da temperatura mundial em 1,5°C, gerando passivos financeiros relevantes para o Estado. Por isso, recomenda a suspensão de novos leilões de áreas de exploração de petróleo na gestão do risco de ativos encalhados (stranded assets), além da reformulação do portfólio da empresa, aumentando o investimento em energia renovável.

Sugere, ainda, duas mudanças de ordem econômica, mas também cultural. A primeira: tornar mandatória a internalização do custo social do carbono, com a inclusão das externalidades climáticas e dos impactos à saúde pública em todas as análises de viabilidade econômica de novos projetos de infraestrutura energética. A segunda: abandonar a lógica de “explorar para financiar”, dando fim à estratégia de usar receitas de petróleo futuro para pagar a transição.

Todas as recomendações estão alinhadas com a Estratégia Brasil 2045 do OC, segundo a qual o país pode se tornar negativo em carbono até 2045. Leia aqui o documento com as recomendações.

Declarações

“O Brasil precisa de progressos reais para se engajar de vez na eliminação dos combustíveis fósseis. Se o governo se limitar à esfera narrativa não sairemos do lugar, e no setor de energia isso tem ocorrido. Esse esforço também deve orientar a postura do país nos posicionamentos multilaterais. Independentemente do caos político e de segurança alimentado pelo presidente Trump, as discussões sobre como abandonar a dependência dos fósseis devem continuar. A barbárie não pode prevalecer.” Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.

“A criação de um fundo para a transição energética, como prevê o despacho presidencial, não pode servir de justificativa para ampliar a exploração de petróleo, ainda que financiado por sua renda. Tampouco deve submeter essa renda a uma lógica de financiamento privado da descarbonização que, na prática, perpetua o modelo primário-exportador da economia brasileira, no qual o petróleo permanece central.” Cássio Cardoso Carvalho, assessor político do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).

“A desigualdade gerada pela expansão fóssil não é só regional ou social — é intergeracional: ganhos concentrados agora; custos climáticos, sanitários e fiscais para nossos filhos”. Nicole Oliveira, diretora do Instituto Arayara

“Um dos desafios energéticos do Brasil está em expandir o sistema elétrico, conciliando as baixas taxas de emissão à manutenção da segurança da operação. Contratar novas térmicas fósseis, por exemplo, deve se restringir a usinas flexíveis que respondam a determinadas demandas e não incluir as que operam em tempo integral e agravam o desperdício das fontes eólica e solar. Resolver definitivamente a dependência dos fósseis, passa por modernização do planejamento da expansão e da operação do sistema elétrico, incorporando mecanismos mais eficientes para prever e precificar a oferta e demanda de energia.” Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente.

“Planejar a transição energética evita ativos encalhados e distorções na alocação de capital público e privado. Um mapa do caminho justo e inclusivo reduz riscos no curto prazo, amplia oportunidades de crescimento sustentável no longo prazo e representa uma escolha econômica racional para o Brasil.” Ricardo Fujii, especialista em conservação do WWF-Brasil.“O caminho para enterrar de vez os combustíveis fósseis é tão difícil quanto urgente e imprescindível. É uma mudança que exige compromisso e responsabilidade de todos os governos – atuais e vindouros – e de uma sociedade que faça e cobre tal escolha. Todo o setor privado – financeiro, agro, indústria – também precisa se engajar, voluntariamente ou não. Tamanha transformação abre portas para inclusão, justiça e para as várias cores da igualdade.” Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA)
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