O SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima – lança, nesta terça-feira (18), um caderno com 37 soluções concretas para reduzir as emissões de metano no Brasil nos principais setores poluidores. O metano (CH4) é 28 vezes mais potente que o CO2 num período de 100 anos e causa uma parcela importante das mudanças climáticas. As emissões brasileiras de metano estão entre as maiores do planeta, apenas em 2024, foram 21 milhões de toneladas lançadas na atmosfera pelo país, segundo cálculos do SEEG. A agropecuária responde por cerca de três quartos desse total. Há cinco anos, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26), em Glasgow, Escócia, o Brasil aderiu ao Compromisso Global de Metano, mas não tem cumprido a meta de reduzir essas emissões. Ao contrário, o volume cresce década após década. Veja a apresentação do estudo no YouTube.
As soluções apresentadas pelo SEEG abrangem quatro setores: Agropecuária, Resíduos, Mudança de Uso da Terra e Florestas e Energia. As respostas mapeadas incluem ações de planejamento, financiamento, governança, operação, monitoramento, entre outras. O documento também atende a um chamado da Organização das Nações Unidas (ONU), de junho passado, para que os países se empenhem em reduzir a emissão de metano, uma das oportunidades mais rápidas, baratas e eficazes para desacelerar o aquecimento global a curto prazo. “Embora o metano seja responsável por quase um terço do aquecimento global até o momento, ele continua sendo significativamente negligenciado nas ações climáticas e na tomada de decisões políticas”, diz o documento das Nações Unidas.
“Já estamos ultrapassando o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris e sentimos as consequências pelo planeta. Reduzir o metano é uma ação crítica para retornar à normalidade climática. Temos à disposição um amplo conjunto de soluções para fazer isso, mas o Brasil precisa transformar esse conhecimento em ação coordenada e com escala”, afirma David Tsai, coordenador do SEEG e gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
Referente a essas emissões de metano, o setor de Energia responde por apenas 2,6% das emissões (0,53 milhões de toneladas), sendo que a maior parte vem da cocção em residência (53%), seguidas pela produção de combustíveis (27%). O IEMA indica cinco soluções para essa frente, sendo quatro delas sobre vazamento e desperdício na cadeia de petróleo, gás e carvão. “Cada emissão de metano requer uma resposta específica. Quem cozinha com lenha porque não tem acesso a outra fonte de energia precisa de política pública. Já as emissões da cadeia de combustíveis fósseis vêm de operação industrial, e ali cabe responsabilizar quem lucra com a atividade”, diz Ingrid Graces, pesquisadora do IEMA.
Gado é vilão
Em 2024, o setor da agropecuária liberou 15,7 milhões de toneladas de metano, o que corresponde a 75,8% do total das emissões brasileiras. Mais de 90% disso deriva da criação de gado. Para fazer frente a esse desafio, o caderno do SEEG lista 15 propostas. Elas abrangem desde planejamento territorial, assistência técnica, acesso ao crédito até mudanças no manejo dos sistemas produtivos e dos resíduos da produção animal.
Elaboradas pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), as saídas indicam que é preciso envolver as cadeias de produção e consumo, passando por governos, academia e instituições financeiras. “Mitigar metano na agropecuária é uma grande oportunidade para o setor, por incluir produtividade e eficiência na produção de alimentos. Essa edição do SEEG Soluções expande as estratégias já existentes, trazendo opções que podem ser implementadas por produtores, municípios e regiões do país”, ressalta Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora.
O setor de Resíduos é o segundo mais impactante, com 16% do total de metano emitido pelo país (3,3 milhões de toneladas em 2024). Aterros e lixões liberam 68% desse total. As 12 soluções desse setor foram elaboradas pelo Iclei – Governos Locais pela Sustentabilidade. Elas consideram redução na geração e no desperdício, encerramento de lixões, ampliação de coleta seletiva e aproveitamento energético, entre outras. “A partir de 2010, o arcabouço legal brasileiro evoluiu, com a estruturação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, mas ainda temos muito o que avançar. Do ponto de vista prático, as cidades brasileiras podem se inspirar nas medidas que sinalizamos no caderno do SEEG, como a valorização dos resíduos orgânicos com foco em reduzir as emissões de metano”, diz Iris Coluna, assessora do Iclei.
Governança do fogo
O setor de Mudança no Uso da Terra (MUT) e Florestas ficou em terceiro lugar, com 5,5% do total de metano do país (1,14 milhões de toneladas em 2024). O fogo é o único processo causador de emissões na contabilidade oficial do setor. Por isso, as cinco soluções elaboradas pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) são focadas no monitoramento, prevenção e combate a incêndios na vegetação nativa. “É preciso fortalecer a governança do fogo”, explica Bárbara Zimbres, pesquisadora do IPAM. “À medida que as mudanças climáticas tornam os períodos de seca mais longos e intensos e ampliam o risco de incêndios, investir em prevenção, monitoramento e manejo integrado do fogo passa a ser uma estratégia de adaptação climática”, complementa.