O primeiro Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026 promoveu a expansão de usinas termelétricas a combustíveis fósseis no Brasil, movimento que levanta preocupações econômicas, operacionais e climáticas. Realizado em duas etapas nos dias 18 e 20 de março, contratou cerca de 19,5 GW de potência com investimentos de R$ 64,5 bilhões e entregas previstas entre os anos de 2026 e 2031. Desse total, aproximadamente 16,8 GW correspondem a termelétricas fósseis, incluindo usinas a gás natural, carvão, óleo combustível e diesel.
De acordo com o quinto Boletim Leilão de Energia Elétrica, iniciativa do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), que analisa os certames brasileiros, a contratação de usinas termelétricas deve aumentar a emissão de gases de efeito estufa no Sistema Interligado Nacional (SIN), além de manter as usinas já existentes operando por mais tempo.
A maior parte da capacidade contratada é proveniente de usinas termelétricas a gás natural, que somam 15.170 MW. Também foram contratadas termelétricas a carvão (1.264MW), óleo combustível (20 MW), diesel (383 MW), biodiesel (98 MW) e biometano (41 MW), além de hidrelétricas, que totalizam 2.502MW.
As estimativas do IEMA consideraram três cenários de operação (alta, média e baixa utilização) com base em diferentes fatores de capacidade e parâmetros de planejamento. No cenário de alta utilização, as emissões anuais podem chegar a cerca de 40 MtCO₂e – praticamente as emissões totais do estado de Santa Catarina em 2024, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) –, enquanto, no cenário de baixa utilização, ficam em torno de 1 MtCO₂e – equivalente às emissões de João Pessoa (SEEG, 2024). O pico de emissões tende a ocorrer entre 2031 e 2036, período em que há maior sobreposição dos contratos.
Apenas as novas usinas, que representam 56% da capacidade contratada entre as usinas fósseis e vão operar por mais tempo, devem emitir cerca de 50% a mais do que as usinas já existentes no cenário mais conservador (baixa utilização).
“Como o leilão visa garantir potência nos momentos de maior demanda, o despacho das usinas contratadas varia ao longo do tempo em função das condições do sistema elétrico. As emissões anuais dependerão diretamente do nível de acionamento dessas usinas, que é influenciado pela gestão das renováveis, pela implantação de tecnologias como baterias e pelas condições dos reservatórios das hidrelétricas”, explica Raissa Gomes, pesquisadora do IEMA.
Veja a faixa de emissões de gases do efeito estufa anuais por cenário de operação:

Nordeste e Rio de Janeiro serão mais afetados
A distribuição geográfica dos empreendimentos também chama a atenção. As usinas se concentram principalmente no litoral do Nordeste e no estado do Rio de Janeiro, além de alguns pontos da Região Norte, geralmente próximas a infraestruturas já existentes de gás natural.
Esse padrão leva à concentração de impactos socioambientais nesses territórios, podendo levar a conflitos em áreas já sujeitas ao estresse hídrico e problemas relacionados à qualidade do ar. Municípios como Caucaia (CE), Barra dos Coqueiros (SE), Macaé (RJ) e Ipojuca (PE) já registram sobreposição de usinas existentes e novas, com aumento significativo da capacidade instalada. Apenas em Caucaia e Barra dos Coqueiros, foram adicionados cerca de 4 GW.
Mapa de instalação das usinas termelétricas:

Paradoxo das renováveis
A ampliação das termelétricas apresentadas como solução para garantir segurança elétrica não resolve o principal problema atual da geração de energia do país: a variabilidade de fornecimento das renováveis. “O Brasil enfrenta simultaneamente excesso de geração e falta de potência em determinados horários, provocando um grande volume de desperdício de energia renovável”, afirma Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
A contratação de cerca de 19,5 GW de capacidade, majoritariamente por meio de usinas termelétricas, foi apresentada como resposta à necessidade de segurança energética. Porém, o principal gargalo do sistema não é a falta de geração, mas a ausência de mecanismos adequados para lidar com o sobressalente e a variabilidade das fontes renováveis.
“O LRCAP contratou um volume excessivo de térmicas, com perfil inadequado de flexibilidade e, com isso, perdeu a oportunidade de conciliar soluções mais alinhadas à transição energética, como o armazenamento de energia, a resposta da demanda e a modernização dos sinais econômicos do leilão. Investimentos em transmissão e em modelos mais avançados de previsão também poderiam reduzir a necessidade de contratação adicional de capacidade”, ressalta Baitelo.