Três em cada dez quilos de açaí produzidos na Amazônia Legal são provenientes de estabelecimentos extrativistas sem acesso à energia elétrica, aponta IEMA

Plataforma interativa do Instituto de Energia e Meio Ambiente revela em detalhes a exclusão elétrica no extrativismo vegetal da região

Cerca de 30% do açaí produzido na Amazônia Legal têm origem em estabelecimentos extrativistas sem acesso à energia elétrica de fornecimento público. Nos casos do óleo de copaíba, da carnaúba e da fibra de piaçava, o volume anual extraído nessas condições supera os 80%.

Na crescente sociobioeconomia da região, as unidades de produção não eletrificadas são uma ampla maioria em Roraima (74%) e no Amazonas (66%), e representam quase a metade do total contabilizado no Pará (45%), que detém a liderança em números absolutos.

O resultado é um modelo de produção ineficiente, onde refrigeradores para estoques perecíveis são uma impossibilidade prática e as frutas têm de ser vendidas in natura por falta de máquinas para extração de sua polpa. Sem margem de manobra, quem produz fica à mercê dos atravessadores.

Os números e as consequências deste cenário de exclusão elétrica constam de um mapeamento produzido pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre 49 produtos do extrativismo vegetal amazônico. 

O trabalho, que resultou em um relatório lançado no final de 2025, agora está disponível para consulta na internet, por meio da “Plataforma Mapeamento da Sociobioeconomia”, site interativo.

“O diferencial da ferramenta é a possibilidade de obter e correlacionar dados em um nível de detalhamento que antes não era possível”, diz o pesquisador Fabio Galdino dos Santos, um dos coordenadores da iniciativa.

“O que está na plataforma e não está no relatório é justamente esse nível bem desagregado da informação. O que o relatório resume e agrega, a plataforma distribui”, explica.

O volume de informações é expressivo. A partir de uma combinação de filtros, pode-se extrair dados sobre a produção extrativista em cada distrito dos mais de 770 municípios da Amazônia Legal, bem como seu nível de acesso à infraestrutura elétrica. E isso para qualquer um dos 49 produtos monitorados.

É possível constatar, por exemplo, que o distrito de São Felipe, o maior do município de São Gabriel da Cachoeira (AM), tem a maior parte de sua produção de açaí (81%) e bacabá (75%) oriundas de estabelecimentos extrativistas sem acesso à energia elétrica. Os dados podem ser depois exportados para aplicativos de planilhas.

Santos conta que os dados segmentados por subdistritos não eram disponibilizados para consulta ao público geral pelo IBGE. “Tivemos que formalizar uma solicitação especial para conseguir mensurar o extrativismo vegetal na Amazônia até esse nível de detalhe, o que é algo inédito”, diz.

Outro recurso são as camadas de informações geográficas que podem ser incorporadas ao mapa, como a localização de linhas de transmissão de energia, hidrovias, rodovias e ferrovias federais próximas aos principais pólos de produção.

Para o pesquisador Vinícius Oliveira da Silva, também coordenador da iniciativa, o relatório e a plataforma buscam não apenas disponibilizar informações, mas também contribuir para a eficiência das políticas públicas de universalização do acesso à energia.  

“A grande fronteira do acesso à energia está na Amazônia, mas historicamente existe uma deficiência do Estado em saber onde estão, quem são e o que produzem essas pessoas hoje excluídas. Nosso trabalho busca suprir esta lacuna.”

Segundo ele, as distâncias e a diversidade do contexto amazônico exigem soluções adaptadas à essas diferentes realidades. “Não basta a política existir. Ela precisa ser baseada em dados reais do território e executada com respeito às particularidades culturais e locais para que realmente promova o desenvolvimento e a qualidade de vida dos povos e comunidades que vivem e mantêm a floresta em pé”.

Foto: iStock
Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA)
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