Amazônia abastece país com energia, mas quase 3 milhões de moradores da região dependem de fósseis para ter eletricidade

Publicação da rede Uma Concertação pela Amazônia, em parceria com o IEMA, aponta caminhos para transição energética justa e adaptada à realidade

Apesar de ser estratégica para a geração de energia no Brasil, cerca de três milhões de moradores da Amazônia Legal dependem de sistemas isolados movidos principalmente a combustíveis fósseis, como diesel e gás. Uma solução cara, poluente e que muitas vezes funciona apenas algumas horas por dia. 

O cenário energético da região é detalhado na publicação “Energia: As Amazônias na agenda de transição, da rede Uma Concertação pela Amazônia, que contou com a parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), de abril. Ela mostra como a exclusão energética afeta principalmente populações tradicionais e comunidades localizadas em territórios remotos da Amazônia Legal.

Entre os dados, merecem destaque:

• Nas unidades de conservação, 22% da população vive sem acesso à energia elétrica pública;

• Em terras indígenas, quase 78 mil pessoas vivem sem atendimento adequado, muitas vezes dependentes de geradores individuais;

• Mais de 212 mil pessoas em assentamentos rurais seguem excluídas do serviço elétrico;

• O Pará concentra o maior número de pessoas em situação de exclusão energética, em um contexto marcado pelos impactos socioambientais das hidrelétricas. 

Vale lembrar que a Amazônia ainda concentra quase um milhão de pessoas sem acesso público à eletricidade.

Além dos impactos sociais, a falta de energia também limita o desenvolvimento econômico da região. Atualmente, cerca de 221 mil estabelecimentos agropecuários da Amazônia Legal operam sem eletricidade, dificultando atividades como armazenamento de alimentos, irrigação, acesso à internet e beneficiamento da produção.

“O modelo baseado em sistemas isolados a combustíveis fósseis é caro, poluente e logisticamente vulnerável. Mas o principal problema é que ele costuma ser implantado sem adaptação às realidades locais e sem participação das comunidades”, afirma Vinícius Oliveira da Silva, pesquisador do IEMA e um dos autores do estudo. 

A publicação destaca uma incoerência: em 2020, a Amazônia Legal respondeu por 25,7% da geração nacional de energia elétrica (majoritariamente renovável), mas consumiu apenas 8,4% desse total. Enquanto isso, milhões de pessoas na própria região continuam dependentes de combustíveis fósseis.

Grande parte dessa população é atendida pelos chamados Sistemas Isolados (Sisol), redes que funcionam fora do Sistema Interligado Nacional (SIN), usado na maior parte do país. Hoje, 90,7% da energia gerada nesses sistemas vem de fontes fósseis. Segundo o estudo, as emissões de gases de efeito estufa dos Sisol são 16 vezes maiores do que as do SIN.

“O acesso à energia é condição essencial para o exercício da cidadania nas Amazônias”, afirma Georgia Jordão, responsável pela área de Conhecimento da Uma Concertação pela Amazônia. “A falta de energia confiável compromete o funcionamento de escolas, o armazenamento de vacinas, o acesso à internet e também limita atividades produtivas locais.”

Como alternativa ao modelo atual, o caderno propõe ampliar soluções renováveis descentralizadas, mais adequadas às características da Amazônia. Entre os potenciais identificados estão os sistemas solares off-grid (conjuntos de painéis solares, baterias e equipamentos que funcionam desconectados com a rede elétrica convencional), com capacidade para atender cerca de 226 mil residências. O estudo também destaca o aproveitamento do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos urbanos, que poderia produzir eletricidade para aproximadamente 546 mil moradias.

Segundo Georgia Jordão, a Amazônia pode ser protagonista de uma transição energética mais justa, baseada em soluções limpas, descentralizadas e adaptadas aos territórios. Para ela, mais do que expandir infraestrutura, é preciso tratar energia como instrumento de cidadania, desenvolvimento e redução das desigualdades.

Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA)
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