O Brasil parte de uma posição particular na transição para uma economia de baixas emissões. O país tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo e combina recursos naturais abundantes com grande potencial para produzir alimentos, bioenergia e novos combustíveis de forma sustentável.
Mas também enfrenta um desafio complexo: uma parcela importante de suas emissões de gases de efeito estufa está relacionada ao desmatamento e à agropecuária, além do setor de energia. Para chegar às emissões líquidas zero — quando as emissões lançadas são as mesmas que as removidas da atmosfera —, entre 2040 e 2050, será necessário transformar diferentes setores da economia e, principalmente, entender como essas mudanças se relacionam.
Uma decisão em uma área pode produzir efeitos em outras. Mudanças na indústria alteram a demanda por energia; transformações nos transportes podem modificar o uso da terra; e medidas na agropecuária podem afetar as florestas, a economia e as emissões. É justamente para compreender como o conjunto dessas conexões deve se transformar no objetivo de descarbonizar o país que surge o NetZero Brasil, iniciativa colaborativa da qual o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) fazem parte desde o começo. O NetZero Brasil, lançado sexta-feira (4) em São Paulo, também conta com a participação de outras organizações da sociedade civil, universidades e centros de pesquisa do Brasil e do exterior. Conheça o NetZero Brasil aqui.


Fotos: Zé Mariano/ Imaflora
“Alcançar as emissões líquidas zero exige olhar para as diferentes realidades brasileiras e aproveitar essa transição como uma oportunidade para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida da população. A mudança para uma economia de baixo carbono não deve, apenas, focar em novas tecnologias reproduzindo a mesma disparidade socioeconômica”, explica David Tsai, gerente de projetos do IEMA.
“O NetZero Brasil amplia a forma como pensamos políticas públicas para a transição climática. Ao reunir dados abertos e integrar setores como agropecuária, energia, florestas e uso da terra em uma única plataforma, a iniciativa permite compreender melhor as escolhas e os impactos associados aos diferentes caminhos de descarbonização. Para o Imaflora, essa infraestrutura fortalece o acesso ao conhecimento e a capacidade do país de planejar uma transição de baixas emissões com base em evidências”, afirma Yohana Cunha de Melo, coordenadora da área de Ciência do Clima, do Imaflora.
Infraestrutura aberta, colaborativa e em evolução
O projeto disponibiliza uma ferramenta permanente de modelagem que permite testar diferentes caminhos para reduzir as emissões no país. Inspirado no Net-Zero America, coordenado pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, o NetZero Brasil adapta essa abordagem às características brasileiras e reúne, em uma infraestrutura computacional comum, modelos especializados em energia, agropecuária, florestas, uso da terra, indústria, resíduos e economia.
Nas palavras de Felipe Barcellos, pesquisador do IEMA: “Buscamos iniciar a democratização do acesso a modelos que sempre foram muito técnicos e restritos. A plataforma é on-line, amigável e com dados abertos, integrando diferentes setores para que mais pessoas possam explorar cenários e entender as escolhas necessárias para a descarbonização”.
O objetivo é identificar custos, limitações, oportunidades e impactos de cada trajetória, inclusive sobre o território.
O diferencial do NetZero Brasil está na possibilidade de comparar alternativas e compreender as consequências de diferentes escolhas. Os resultados podem apoiar governos, empresas, instituições financeiras, pesquisadores e organizações da sociedade civil na formulação e avaliação de estratégias de desenvolvimento.
“Para desenhar os cenários, a primeira versão da plataforma contará com 39 variáveis ajustáveis. A ideia é ampliar gradualmente esse número e também aumentar a velocidade de processamento, permitindo testar mais variáveis e um número maior de combinações. Cada cenário fica salvo na plataforma e pode ser consultado por outras pessoas. Com o tempo, esse acervo de cenários ajudará a construir uma base de experiências e referências”, acrescenta Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas e membro do Brazil Lab na Universidade de Princeton.
A abertura é um dos princípios centrais do NetZero Brasil. A iniciativa prevê disponibilizar metodologias, códigos, dados e componentes tecnológicos para que pesquisadores e outras instituições possam utilizar, avaliar e aprimorar a infraestrutura. A proposta também é que ela permaneça em evolução, incorporando novas informações, tecnologias e métodos conforme forem desenvolvidos.
O NetZero Brasil é, portanto, mais do que uma projeção sobre o futuro. A proposta é criar uma infraestrutura pública digital capaz de apoiar o planejamento da transição climática e acompanhar a evolução das tecnologias, dos dados e do conhecimento científico.



Fotos: Zé Mariano/ Imaflora e Divulgação/ IEMA
Além de pesquisadores do IEMA e do Imaflora, o projeto reúne representantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), do ICLEI América do Sul, do IEI Brasil, da Ecostage, das universidades de Oxford, no Reino Unido, Princeton e Minnesota, ambas nos Estados Unidos, e Lisboa, em Portugal. Para construir essa visão integrada, o trabalho inclui conhecimentos já desenvolvidos por iniciativas como o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, o MapBiomas e o Net-Zero America.