Energia elétrica, transporte e qualidade do ar estão presentes em boa parte das decisões que afetam o cotidiano das pessoas. Mas como saber quais caminhos reduzem a poluição, ampliam o acesso à energia e tornam a infraestrutura mais justa e menos prejudicial à população e ao meio ambiente?
Há 20 anos, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) trabalha para responder a essas questões com ciência e dados. Criado em 2006 para fortalecer a produção de conhecimento técnico independente na sociedade civil, o IEMA nasceu com olhar para a cidade. Mas, hoje, transforma pesquisas em informações públicas, ferramentas e propostas que ajudam a enfrentar desafios e qualificar escolhas que moldam todo o país, incluindo a imensa Amazônia.
Veja iniciativas e conquistas que marcaram a atuação do IEMA
1. Transformar dados técnicos em informação pública é uma das marcas do IEMA. Em 2009, o Instituto desenvolveu o sistema Qualar para facilitar o compartilhamento de dados sobre a qualidade do ar com a sociedade e os especialistas. Posteriormente, a ferramenta foi doada à Cetesb¹.
2. O IEMA participou da elaboração da Resolução Conama² nº 418/2009, que estabeleceu critérios para o controle da poluição veicular. Com a contribuição do IEMA, o Brasil avançou diretamente da fase P5 para a P7 do Proconve³, antecipando a adoção de limites mais rigorosos de emissão de veículos pesados. Em 2022, entrou em vigor a fase P8, que ampliou essas exigências.
3. Reduzir a poluição dos transportes também exige melhorar a forma como as pessoas se deslocam. Com essa perspectiva, o IEMA produziu estudos sobre mobilidade urbana que destacam a importância do transporte público e de alternativas de transporte ativo, como o uso da bicicleta e os deslocamentos a pé, em substituição ao transporte individual motorizado.
O Instituto também publicou análises para avaliar os impactos e as possibilidades de tornar os deslocamentos urbanos menos poluentes.
4. Uma das formas de reduzir a poluição do transporte coletivo é substituir ônibus antigos por modelos menos poluentes. Para apoiar esse processo, o IEMA elaborou um inventário detalhado das emissões do transporte de passageiros em São Paulo e, para a SPTrans⁴, desenvolveu as ferramentas PlanFrota e ReFrota. Elas permitem, respectivamente, simular cenários de renovação da frota e estimar os efeitos das frotas circulantes sobre as emissões.
Essas ferramentas orientaram a transição para ônibus mais limpos em São Paulo, a fim de ajudar o município a efetivar sua lei.
5. Além de planejar a renovação da frota, é importante acompanhar os resultados das políticas de transporte. Para isso, o IEMA criou o Monitor de Ônibus SP, plataforma que reúne dados sobre a velocidade dos ônibus, a frota, a oferta de lugares, o número de passageiros transportados e as emissões de poluentes na cidade de São Paulo. O Instituto também avaliou os efeitos de 64 faixas exclusivas para ônibus sobre o tempo de viagem e as emissões, em comparação com o transporte individual.
O monitoramento permite avaliar como as mudanças nas ruas afetam a qualidade de vida das pessoas, o tempo gasto no trânsito, o desempenho dos ônibus e as emissões de poluentes.
6. O acompanhamento dos impactos socioambientais também depende de saber quanto cada modalidade de transporte emite, principalmente para desenhar políticas públicas adequadas à melhoria da qualidade de vida. O IEMA foi pioneiro na elaboração de inventários nacionais de emissões atmosféricas do setor. Em 2011, publicou o primeiro Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários, atualizado pela terceira vez em 2025. Em seguida, lançou o Inventário do Transporte Ferroviário de Cargas, em 2012, e o da Aviação Civil, em parceria com a ANAC⁵, em 2014.
7. A partir de 2013, o Instituto ampliou o trabalho referente às emissões que contribuem para o aquecimento global. Desde então, realiza as estimativas anuais de gases de efeito estufa (GEE) dos setores de energia e de processos industriais no SEEG⁶, do Observatório do Clima. Também desenvolveu o SEEG Monitor Elétrico, ferramenta que acompanhava diariamente a composição da matriz elétrica brasileira e suas emissões.
8. O acesso a informações confiáveis sobre a qualidade do ar no Brasil ganhou um novo instrumento em 2015, com a criação da Plataforma da Qualidade do Ar. Também mantida e atualizada pelo IEMA, ela procura disponibilizar todos os dados nacionais de forma padronizada em português e inglês. A plataforma tornou-se referência nacional e fonte oficial de informações brasileiras para a base global de qualidade do ar da OMS⁷.
9. O IEMA também passou a aprofundar o acompanhamento das emissões do setor elétrico. Anualmente, publica o Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas, que identifica as usinas movidas a combustíveis fósseis conectadas ao SIN⁸ e detalha suas emissões por instalação, combustível e proprietário. As informações ajudam a dimensionar os impactos ambientais dessas usinas e a orientar o planejamento de uma transição justa no setor.
10. Conhecer as emissões das termelétricas também auxilia na avaliação das escolhas que moldam o futuro da matriz elétrica. Por meio dos boletins Leilão de Energia Elétrica, o IEMA acompanha as contratações de energia elétrica e analisa os riscos de compromissos de longo prazo com fontes fósseis, que podem prolongar a dependência desses combustíveis. Como membro fundador da Coalizão Energia Limpa, o Instituto também contribui para a articulação e o debate de políticas públicas voltadas à expansão de fontes mais limpas.
11. A transição energética também precisa garantir que mais pessoas tenham acesso à eletricidade. No território indígena do Xingu, o IEMA avaliou, entre 2018 e 2019, a viabilidade e os impactos de sistemas de energia solar fotovoltaica instalados pelo Instituto Socioambiental. O estudo identificou benefícios para a segurança energética das comunidades.
12. Para ampliar esse acesso, é necessário saber onde estão as pessoas que ainda vivem sem atendimento adequado. Em 2021, o IEMA desenvolveu uma metodologia georreferenciada inédita que identificou um milhão de pessoas sem acesso à eletricidade pública na Amazônia Legal. O levantamento forneceu subsídios para acompanhar programas como o Luz para Todos e para qualificar discussões sobre a universalização do serviço no Congresso Nacional.
13. Os dados sobre a falta de eletricidade também ajudam a identificar soluções e aprimorar as regras que orientam sua oferta. Nesse campo, o IEMA é cofundador e integra o secretariado executivo da Rede Energia & Comunidades, que reúne organizações do terceiro setor e movimentos para aperfeiçoar políticas de universalização do acesso à energia.
14. Na Amazônia Legal, o acesso à energia também é essencial para as atividades econômicas de comunidades tradicionais e extrativistas. O estudo Mapeamento da Sociobioeconomia, do IEMA, identificou mais de 84 mil estabelecimentos extrativistas e comunitários sem acesso à eletricidade. Os resultados contribuíram para subsidiar o Plano Nacional da Sociobioeconomia e evidenciaram a necessidade de soluções adequadas às particularidades dessas localidades.
15. Para responder ao desafio da universalização do acesso à energia elétrica, pela primeira vez, uma organização do terceiro setor assina uma parceria com a Aneel⁹. Ambas desenvolvem o Sandbox Regulatório Energias da Floresta. A iniciativa testa modos adequados e validados com moradores locais para levar energia elétrica pública, limpa e de qualidade.
16. O planejamento de obras de transporte também precisa considerar os impactos sobre o meio ambiente e as comunidades locais. O IEMA produz e sistematiza informações para promover o aperfeiçoamento do processo decisório de infraestrutura de transportes no país, com vistas a garantir o atendimento às melhores práticas técnicas, bem como a transparência e o controle social. O Instituto também tem atuado junto a ministérios, TCU¹⁰ e CGU¹¹ para fortalecer a incorporação de critérios socioambientais e de participação social ao planejamento de transportes na região, além de capacitar movimentos sociais e organizações da sociedade civil para acompanhar decisões públicas.
É preciso desenvolver uma infraestrutura para a Amazônia e não apenas na Amazônia.
17. Essa preocupação também orienta o IEMA no acompanhamento, avaliação e proposição de melhorias na implementação do PIT¹² no nível federal, conforme definido pelo Decreto 12.022/2024. Em 2025, o Instituto lançou um mapa interativo de obras de transporte na Amazônia, reunindo dados públicos sobre projetos na região. A ferramenta facilita o acesso às informações e permite que a sociedade acompanhe os empreendimentos e seus possíveis impactos. Também atuou ativamente para que a sociobiodiversidade e os critérios socioambientais fossem incorporados, pela primeira vez, no PNL 2050¹³.
18. Expandir a produção de biocombustíveis sem estimular o desmatamento nem comprometer a produção de alimentos é um dos desafios da transição energética no Brasil. Para investigar caminhos possíveis, o IEMA publicou, com participação do Observatório do Clima, um estudo sobre o potencial de expansão da bioenergia até 2050. A análise aponta que a produção e o consumo podem mais que dobrar com o aproveitamento de pastagens degradadas para o cultivo de matérias-primas, conciliando a transição energética com a regeneração ambiental.
19. Avaliar as possibilidades de reduzir as emissões em diferentes setores é fundamental para planejar o futuro. Com esse propósito, o IEMA faz parte do NetZero Brasil, plataforma internacional que integra modelos de energia, transportes, indústria e uso do solo para produzir e comparar cenários de descarbonização. As simulações permitem analisar como medidas como o desmatamento zero, a restauração florestal e a integração de políticas públicas em diversos setores podem contribuir para reduzir as emissões e ampliar a remoção de carbono da atmosfera.
20. A atuação do IEMA também se estende à cooperação internacional. Desde 2014, o Instituto integra a CCAC¹⁴, iniciativa internacional vinculada à ONU¹⁵ e dedicada à redução de poluentes climáticos de vida curta. Também participa de redes latino-americanas, como a Coalición ALAire¹⁶, e contribui para discussões nas COPs¹⁷ e em fóruns técnicos internacionais. Nesses espaços, compartilha estudos e dados produzidos no Brasil para apoiar o enfrentamento da poluição do ar e das mudanças climáticas.


¹ Companhia Ambiental do Estado de São Paulo;
² Conselho Nacional do Meio Ambiente;
³ Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores;
⁴ São Paulo Transporte S/A;
⁵ Agência Nacional de Aviação Civil;
⁶ Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa;
⁷ Organização Mundial de Saúde;
⁸ Sistema Interligado Nacional;
⁹ Agência Nacional de Energia Elétrica;
¹⁰ Tribunal de Contas da União;
¹¹ Controladoria-Geral da União;
¹² Planejamento Integrado de Transportes;
¹³ Plano Nacional de Logística 2050;
¹⁴ Climate and Clean Air Coalition (Coalizão Clima e Ar Limpo);
¹⁵ Organização das Nações Unidas;
¹⁶ Coalición Latinoamericana por el Aire Limpio;
¹⁷ Conferences of the Parties (Conferências das Partes).